sexta-feira, 13 de junho de 2008

O santinho querido.

Hoje é dia de Santo Antônio. Aquele que arranja marido, dirão em coro as moças solteiras. E uma boa parte das não solteiras também. Sinal dos tempos. Mesmo sem o consentimento da Igreja Católica, as legalmente separadas, as simplesmente abandonadas e as que buscam um outro companheiro, aderiram ao apelo para o santinho. Como não tenho evidências favoráveis ou contrárias de que o fato (conseguir par) seja conseqüência do ato (apelar ao santo), evito discorrer sobre a eficácia das ações do Antônio.

Independente dos motivos que levaram as pessoas a considerar este personagem como protetor das casadoiras, eu devo afirmar que algumas das formas de apelo ao santo, descritas ou passadas oralmente de geração em geração, são extremamente contraditórias, politicamente incorretas ou simplesmente hilárias. Nada mais contrário à preservação ambiental do que o estímulo ao esfaqueamento de bananeiras, na calada da noite.

A indicação de abrir a porta da frente da casa para que Santo Antônio permita a entrada de alguém especial em sua vida, dizendo - “Santo Antônio, protetor dos enamorados, faça chegar até mim àquele que anda sozinho e que em minha companhia será feliz” – possibilita o aparecimento de oportunistas e compromete a segurança das solicitantes. Impensável nos dias de hoje, mesmo em condomínios fechados.

Vejam o primor desta simpatia para ser pedida em casamento - pegue uma fita vermelha e use no sutiã, entre os seios, por sete dias. Após este prazo, coloque dentro de um envelope, lacre e deixe no altar de Santo Antônio. Reze ao santo pedindo que realize seu desejo. Depois, acenda uma vela de sete dias. Diferente de outras simpatias que determinam a escolha do nome dos prováveis candidatos, esta é anônima e permite uma variada gama de possibilidades. Portanto, não estranhe se um desconhecido lhe oferecer flores, mesmo sem usar aquele desodorante da propaganda.

Finalmente uma divertida receita de banho de atração, para ser aplicado em qualquer horário do dia. Apesar de estar descrita em um site com simpatias de Santo Antônio não há referência ao santo, em nenhum momento. Inclui a fervura de um litro de água com sete pétalas de rosas vermelhas (símbolo da paixão), sete gotas de óleo essencial de sândalo (afrodisíaco), sete cravos da Índia (afrodisíaco) e sete pitadas de coentro (afrodisíaco). Coar e jogar do pescoço para baixo após o banho.

Com tanto afrodisíaco eu fico com pena do primeiro ser de calças compridas que aparecer na frente da vivente. Sacramentado o estrago, a própria vai ser obrigada a casar com o coitadinho. Mais um ponto para a fama de casamenteiro do santo, mesmo por vias tortas.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A triste sina dos super-heróis.

Na infância não me recordo de querer ser um super-herói. Lógico que gostava das histórias e vibrava com o Capitão Marvel, Super-Homem, Homem-Submarino, Flash Gordon e tantos outros. Ao que me refiro é imaginar ou brincar de ser super-herói – estar na pele dos disponíveis ou dar asas a imaginação e se passar por um novo super-herói.

Agora que já não sou mais uma criança, fico pensando nas conseqüências que o tempo traria para estas criaturas. Não sei se faz parte da constituição dos super-heróis a longevidade e juventude eternas. Se não fizer, deve ser deprimente a manutenção de super-poderes em seres envelhecidos ou com saúde deteriorada.

Imaginem o Flash Gordon, ainda com a capacidade de tele-transporte e com Alzheimer. Se controlar o desaparecimento de idosos sem lembrança, nas vizinhanças, já é difícil o que se dirá de um desaparecimento no espaço. Procurar em milhares de asteróides, planetas e sóis sem nem ao menos desconfiar em qual deles o vovô Gordon, agora já não tão Flash, resolveu passear.

Isso sem falar nas dificuldades ecológicas decorrente das poderosas mudanças de ambiente. Nestes dias de superaquecimento o coitado do Iceman não duraria muito. Se nem os glaciares estão resistindo, imaginem uma pequena geleira ambulante. Logo, logo ele estaria derretido, escorrendo pelo bueiro. Ou quem sabe, dependendo do local onde o fato ocorresse e devido a escassez de água, ele seria sorvido de um gole só pelas crianças da Somália. Pelo menos seria um fim utilitarista e nobre.

E o pobre do Homem-Submarino passar pelo vexame de contaminar o mar, devido à incontinência urinária pós-cirurgia de próstata. E a Mulher-Maravilha peregrinando de consultório em consultório suplicando por uma dose extra de botox ou por um peeling adicional, na tentativa de manter a formosura de outros tempos.

É se para nós, reles mortais e humanos, o tempo é implacável imaginem o que ele não faria com as qualidades e habilidades dos Superes. Nesta hora é que vejo como é bom sem uma pessoa normal.

Foto: retirada de
www.humorbabaca.com.br

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Instantâneos paulistanos (4).

Ainda sobre engarrafamentos. A observação das atividades das pessoas durante os engarrafamentos, em São Paulo, renderia uma série de trabalhos sociológicos de qualidade. Hoje pela manhã tive a oportunidade de presenciar uma cena cuja ocorrência seria impensável há dez ou mais anos atrás.

Num momento de lentidão maior do trânsito observei que o rapaz, no carro ao lado, realizava procedimentos de toucador, explicitamente. Com o auxílio do espelho do carro e uma escova ele fazia um penteado. Não uma simples escovação de cabelo, com o intuito de ajeitá-lo. No lugar deste ato prosaico, tive a oportunidade de assistir a uma refinada montagem do topete, com direito a elaborados floreios da escova, quase como os movimentos da raquete de tênis para desferir golpes certeiros na bola. Numa lenta e descarada demonstração de vaidade o topete foi feito e refeito diversas vezes até completar a obra-prima, sob os olhares atentos da multidão no trânsito.

Sem ferir a virilidade do moço, que a meu ver não ficou comprometida em nada, imaginei a cena seguinte com direito a retirada de sobrancelha e uso de protetor labial. Sem o menor constrangimento. Depois de pronto, à luta. Com certeza o dia seria mais feliz com os retoques na aparência.

Sinal dos tempos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Cadê o post daqui?

Cadê o post daqui?

O gato comeu. Cadê o gato?

Fugiu para o Uma parte da coisa.


terça-feira, 3 de junho de 2008

Ausência.

Por motivos alheios à vontade, o amigo Otavio andava sumido. Havia abandonado até a nobre tarefa de comentarista. Hoje ele resolveu voltar à atividade, timidamente, comentando os posts dos amigos. Apesar de já ser um alento, tenho certeza que os seus escritos estão fazendo falta.

De alguma maneira me sinto na obrigação de estimular o retorno pleno. Mas de que modo atingir este intento. Resgatar a campanha do PI, agora na versão PO? Dar asas a criatividade e misturar paisagens européias com cantinhos regionais? Qual a melhor maneira de trazer de volta o escrevente?

Quem sabe um estímulo caseiro não desperta a veia criativa do moço. Libertar a imaginação e se perder pelas ruas do Marais, resgatar o gosto dos cafés em Saint Germain, as caminhadas a gauche e a droit do Sena, o por do sol nas Tuileries... Nada como doces lembranças para dar novas forças.

Agora, vamos aguardar. Nem que seja sentado.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Licenças literárias.

Escrever não é fácil. É muito bom, mas fácil não posso dizer que seja. Ás vezes - em alguns casos, muitas vezes - o pensamento não segue um caminho linear e contínuo em direção ao texto. Ele teima em dar voltas, move-se para um lado, para o outro, recolhe-se, envergonhado, para algum canto do cérebro e, finalmente, aparece travestido como uma figura de linguagem.

Figura de linguagem - pelo menos este era o nome atribuído àquelas confusões da escrita que detinham o poder de mudar todo o sentido das palavras e frases com a função de tornar um texto mais erudito, agradável ou brilhante. Isto quando o escrevente tinha o domínio da figura, do estilo e das suas combinações. Senão ficava parecendo conversa de doidos.

Com o passar do tempo, sob a denominação genérica de licenças literárias, houve uma misturança generalizada das figuras formais de linguagem e aportamos num vale tudo de dar dó. Imaginem uma hipálage eufêmica sarcástica com aparência de hipérbato mesclada com epizêuxis.

Recentemente, em textos disponíveis na internet, tive a oportunidade de apreciar duas pérolas, frutos desta licença literária. A primeira em um site culinário, que descreve uma receita, poéticamente denominada de Reine de Sabá. Sem pressa caros leitores, a licença não está ligada ao nome do prato. Depois da descrição formal dos ingredientes e do modo de fazer, o autor culmina com a descrição da apresentação do prato, Deste modo - deixe secar o glacê e cubra com violetas cristalizadas, amêndoas, nozes, damasco cortado em lascas, para ficar como um chão de um bosque no outono. É brincadeira.

A segunda foi num site jornalístico, de uma conhecida senhora gaúcha, a qual dissertava sobre a delicada simbologia das flores até sair com esta frase lapidar - Afrodite, a deusa do amor, zela pelas flores, entre as quais a rosa é o símbolo absoluto do amor, reproduzindo em suas pétalas a maciez da carne de uma mulher jovem. Neste momento caiu a ficha do porque as rosas colombianas são tão volumosas, deve ser para transmitir a maciez da pele das jovens rechonchudas.

Ora vejam, licenças literárias ou exageros descabidos?

Que cada um crie o seu juízo ou escolha a sua posição.

sábado, 31 de maio de 2008

Títulos e sensações.

Wanderer above the Sea of Fog, 1818
Caspar David Friedrich
Não sei o motivo, mas hoje acordei com o nome de um romancista gaúcho na cabeça. Josué Guimarães. Não foi nenhum fato real que me aguçou a memória, visto que já faz mais de vinte anos que ele não está entre nós. O que é uma pena. Tenho boa lembrança dos seus escritos. Mesmo depois do desastre da transposição para o cinema do seu épico A Ferro e Fogo. A coitada da Jacobina Mentz deve estar até agora se revirando na cova.

Acho que foi a nostalgia dos nomes dos seus romances que me fizeram lembrar do autor. Independente da qualidade da obra, as escolhas dos títulos foram muito felizes. Transmitem, até hoje, mesmo sem lembrar de detalhes as sensações do enredo, das personagens e da ambientação.

É tarde para saber, romance político quase um clichê entre seres de mundos diferentes que não dispõe de todo o tempo para aproveitar os acontecimentos – se alguma coisa poderia ser diferente, é tarde para saber. Enquanto a noite não chega apresenta a longa espera do casal de velhos pelo filho que se perdeu na guerra. Os momentos passam recordando o que já foi e esperando pelo que virá. A falta de alento e futuro é algo tão palpável e certo como a noite que chega. Depois do último trem narra as desventuras do retorno de Eduardo para a sua terra condenada – entre destroços humanos e casas abandonadas ele espera pelo último trem, que há muito já partiu.

Nesta melancólica tarde vou viajar com estas sensações... para um tempo que passou, para um lugar que não tem futuro e para a saudade dos que já se foram. Doces memórias me embalem...

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