segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Paciência.


Eu sou uma pessoa calma. Poucas vezes, na minha vida, cheguei a perder o controle. Por muito pouco tempo. Quase imediatamente recupero o prumo e sigo em frente. Solucionando o que necessita solução ou aceitando o que é inexorável. Apesar de persistente não sou de dar murros em ponta de faca. Sei reconhecer os princípios, meios e fins das situações, mesmo daquelas em que estas partes possam não agradar ou sair a contento.

Acho que existe um componente genético nesta calma. Ou comportamental. Meu pai era assim. Ou herdei ou aprendi. E sai ganhando. Isto não significa que eu chegue perto de ser “um zen”. Faço o tipo calmo, agitado. Se é que existe esta composição. Ou melhor, calmo-entusiasmado. Realmente me entusiasmo facilmente. Calmo-etusiasmado-paciente, agora chegamos ao ponto.

Este último adendo, paciente, talvez seja o que tenha mais limites. Algumas situações em que as pessoas perdem a disposição e o humor em segundos eu agüentaria horas. Entretanto, existem experiências que minam instantaneamente a minha capacidade de persistir. Duas delas são exemplares. Sem a mínima relação entre elas, porém igualmente nefastas: jogos eletrônicos e bancos.

Admiro a pachorra que alguns seres têm de ficarem períodos intermináveis, na frente de um computador ou daqueles aparelhos com nomes estranhos e que eu nunca consigo pronunciar ou lembrar. Apenas jogando. E aproveitando ao máximo o prazer proporcionado pelas atividades, ditas lúdicas, que são capazes de me levar à loucura. Devo ter algum defeito, grave, em conexões cerebrais específicas para este tipo de desempenho. Não adianta nem tentar. Em menos de um buzinéssimo eu já me descontrolo. Às vezes na abertura da tela principal ou no aprendizado das regras. É quase visceral.

Ainda bem que eu não trabalho na indústria de diversões. Quanto aos bancos, bem este é um assunto para outra hora. Quando eu estiver mais calmo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O XIS da questão.



Aqui por engano. Vá para o lugar certo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Todo o cuidado é pouco.

Diferenças de volume, entre os componentes de um casal, sempre suscitaram situações peculiares. Uma boa parte delas relacionadas às especulações sobre formas, posições e aperfeiçoamentos necessários ou simplesmente decorrentes dos atos libidinosos praticados pelos envolvidos. Em pares formados por um ele avantajado/ela delgada ou na sua contrapartida complementar e biunívoca, as modalidades de viver perigosamente aguçam a curiosidade alheia.

Outra fonte de preocupação relaciona-se com o comando ou controle das atividades do casal, assumindo que o ser volumoso possa usar e abusar da sua suposta vantagem impondo uma relação de dependência, sob a ameaça de despertar a fúria de um “quase” Titan. Como diz o ditado – “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Entretanto, mesmo nos mais oníricos devaneios ninguém imaginaria uma situação semelhante à divulgada no portal Terra, hoje.

Condenada mulher de 136 kg que matou namorado ao sentar nele, esta é a notícia. Não consigo e nem pretendo imaginar, muito menos descrever a cena. Pobre rapaz, que fim lamentável. Apesar da seriedade do fato, não pude evitar. Imediatamente o que me veio a mente foi a situação constrangedora do promotor na apresentação, ao júri, da arma do crime. E o atestado de óbito então, uma verdadeira peça non-sense.

Como ela foi condenada a três anos de liberdade condicional (confesso que não entendi a descrição desta pena – isto significa que ela será obrigada a cumprir três anos em liberdade e depois é que vai presa, pelo resto da vida) é provável que a esta hora a arma do crime já esteja em circulação. Da próxima vez pense duas vezes antes de aceitar o convite amável daquela colega um pouco mais opulenta. Vai que vire namoro. Esta situação pode começar a ocorrer em abundância. Todo cuidado é pouco.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Capitão gancho.

Alguns devem estar pensando: agora ele endoidou, de vez. Ora onde já se viu escrever sobre personagem infantil. Ainda mais vilão. Logo no segundo post de retorno brindar o público com a narrativa de malvadezas, vilanias, baixarias, mesquinhez e outros que tais. Já não bastassem os fatos corriqueiros, teremos de assistir de camarote a contaminação deste espaço ainda não conspurcado pelo mal. Um dos raros oásis de honestidade, autenticidade e virtudes. Xô, capitão gancho.

Encerrada a sessão de loas, explico-me. Não vou nem sequer fazer referências ao bandido. Pelo menos não àquele bandido. Os das estórias infantis. Vou, sim, adonar-me da denominação. Sem a parte ruim da personagem. Apenas a nomenclatura. Depois deste breve (digamos assim) afastamento, eu tenho de reconhecer que eu sempre tive tendências de ser um capitão gancho. Aos intrigados, a explicação. Na linguagem jornalística gancho é um motivo que proporciona ou justifica a publicação de uma matéria. Coloquialmente também usamos o gancho para falar de algum assunto ou lembrar-nos de algo.

Os que me acompanham desde o antes lembram que a maioria das publicações era estimulada por um gancho. Um poema publicado na Encosta do Mar ou no Mar me quer. Reflexões da Lele ou da Chrises. As criações não culinárias da Adriana. Até as lembranças, quase medievais, do Chili verde e do Musikal. Sim, eu abusava do aproveitamento de ganchos e assim produzia os meus escritos. Rarefeitas as minhas visitas, e algumas vezes as fontes também, os ganchos minguaram. E a mingua contribuiu para a manutenção do afastamento.

Mas agora, respeitável público, o capitão gancho promete um grande retorno.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Prosa dura e tico-tico.

Não sei por que paro de escrever. Faz uma falta imensa. Perco muito com isto. Mas nem sempre apenas a constatação ou o sentimento desta perda são suficientes para colocarem as escritas nos eixos. Principalmente quando o tipo e teor da escrita são substituídos.

Nesta minha ausência não deixei formalmente de escrever. Mudei de foco. Por opção me dediquei a escrever sobre assuntos diferentes dos tratados aqui. De uma forma particularmente interessante tive de reaprender a escrever. Alfabetizar-me em linguagens editoriais bem distintas da informalidade do meu espaço. Acho que de certa forma me saí bem. Escrevo entrevistas ping-pong, reportagens e até press releases. Todos ainda sofríveis, mas já com cara daquilo que deveriam ser. Se tivessem a oportunidade, tenho certeza que os meus leitores reconheceriam que a entrevista é uma entrevista e que a reportagem lembra uma reportagem. E persisti na atividade de escrevinhador científico. Ora como autor, ora como "corrigidor" de textos alheios. Deste modo a produção, neste ínterim, não foi desprezível. Apenas um pouco desfocada do habitual.

É chegado o dia da remissão. Cansei da prosa dura e do estilo tico-tico. Quero voltar a escrever parágrafos longos, recheados de devaneios, com duplos e triplos sentidos. Sentir o regozijo na abundância dos pontos-e-vírgulas, das interrogações sem repostas, das longas reticências ....... Preciso me livrar das amarras da formação sintática ordinária do fato-a-ser-descrito-como-ele-é. Anseio por interpretar, criar, dar asas a imaginação e voar. De volta pra cá.

PS: a quem se interessar pela definição do estilo tico-tico e o resgate do ponto-e-vírgula, sugiro a leitura do mestre Claudio Moreno,
aqui.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Se.

Gosto de ditados populares. Pela sua sabedoria simplória. De alguns não faço a mínima noção da origem. O que não diminui em nada o apreço. Só acho que a maioria deles é meio limitada. Ficam apenas na sugerência e, com isto, permitem distorções. Por sinal, também gosto muito de uma distorção de ditado popular.

Se de boas intenções o inferno está cheio - não deve ser um lugar tão mau para procurar executivos criativos.

Se Deus dá o frio conforme o cobertor - ele deve saber que as mantas de pele de renas são as mais adequadas para o inverno.

Se eu quero, eu posso, eu sou - alguém deveria avisar o departamento de pessoal porque o reflexo ainda não entrou no meu hollerite.

Se é difícil agradar a gregos e troianos - deve-se evitar negócios com este povos mal humorados.

Se falar mal dos outros é fácil, difícil é falar bem - continuemos a falar mal.

E muito mais. Aguarde.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Coisas para fazer nos dias felizes.

A felicidade é uma sensação ímpar. Um estado de espírito especial. Nem sempre vivenciada das mesmas formas, por diferentes pessoas ou pela mesma pessoa. Ora estamos felizes por um motivo, ora por outro. Pelo menos nós – os afortunados com a percepção da felicidade. Pequenas coisas podem ser grandes motivos para a felicidade.

E quando se está feliz é bom fazer coisas que reforcem este sentimento.

ver fotos antigas e voltar no tempo e ter as mesmas sensações e rir com o que fomos e com o que nos tornamos;
beijar uma criança ou vê-la dormir;
viajar naquela música;
preparar ou saborear aquela comida;
deitar no chão e contar estrelas;
pegar chuva e chapinhar nas poças d’água;
dar um abraço apertado num(a) amigo(a);
sonhar.......

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dias cinzentos.

Évora - maio 2009
Estamos passando por um longo período de dias cinzentos. Daqueles em que a cor do céu não dá as caras. Muito menos o sol. Dizem que deve durar ainda um bom tempo. Acho que este ano teremos uma primavera turva.

Da minha parte, se não vierem acompanhados daquela garoa depressiva, tudo bem. Até gosto de dias assim. Aprendi a apreciar as diferentes tonalidades de cinza e a desfrutar o destaque que este fundo e luminosidade oferecem aos outros corpos, os coloridos. As flores, por exemplo, se destacam nestes dias. Com cuidado e boa-vontade pode-se perceber nuances e tonalidades que passam despercebidas durante os períodos ensolarados.

Mesmo a tristeza e a prostração, poeticamente ou realisticamente, associadas a estes dias não me são desagradáveis. Não se vive apenas de alegrias. É salutar exercitar todos os sentimentos. Para evitar que eles enferrujem e, quando tornarem-se apropriados, apareçam com intensidade ou duração desmedidas. É, cada louco com a sua mania.

domingo, 20 de setembro de 2009

Era uma vez uma luz.


Revendo, hoje, alguns textos antigos encontrei este que nunca publiquei no blog. Ele não foi feito para fazer parte do meu espaço - foi criado especialmente para uma anjinha amiga, que atualmente não escreve mais. Parou, disse que ia voltar e até agora nada...


Por isso resolvi publicá-lo, na esperança de chamar pela Lau.


Era uma vez uma luz tão pequenina,
Que ficava envergonhada de ser assim.
Seu comprimento era ainda limitado
E não brilhava tanto como as outras.

Ficava sempre escondida, num canto,
Curtindo a sua pequenez, acanhada
Até que um dia um brilho fulgurante aproximou-se
E, encantado com aquela luzinha, perguntou:

Porque escondes a beleza da tua luz?
Porque impedes que os outros te apreciem?
Lembres que não és uma luz só para ti
Tens deveres para com os caminhos dos outros.

Todos nós começamos como luzinhas,
Depende de nós o tamanho que teremos
Para crescer é preciso gostar muito
De ser apenas a luz, que ilumina.

PS: onde quer que esteja, saiba que você faz falta.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Recuerdos de San Martin


O pensamento mágico faz parte do cotidiano infantil. Acontecimentos, heróis e vilões, relações familiares, amigos, direitos e deveres, praticamente todas as atividades das crianças passam por este filtro. E criam um vínculo com uma realidade toda própria. Com o passar do tempo a maior parte das pessoas perde definitivamente a capacidade de conviver harmonicamente com a fantasia. Por escolha, por inibição ou por incapacidade de elaborar enredos ilusionistas fincamos o pé naquela realidade comum a todos. O banal mundo real.

Felizmente, nem sempre a capacidade criativa de traçar paralelismos com o verdadeiro e inventar fatos, histórias e personagens morre. Em alguns casos ela adormece. Fica quiescente, como quem não quer nada, a espreita. Dá as caras quando nos apaixonamos, faz visitas periódicas atiçando os nossos medos e vai levando. Esporadicamente. Em outros casos ela apenas cochila, muito superficialmente e a freqüência dos retornos se faz mais amiúde. Poderia até afirmar que em certos casos esta capacidade habita permanentemente as cabeças. Repetitivamente. Até como uma forma de contraponto terapêutico à racionalidade e ao pragmatismo.

Comigo o imaginário tem livre trânsito. De forma contumaz em relação a um lugar – San Martin. Não me peçam para descrever San Martin. Ele é a sensação, magicamente infantil, de estar. Fica não sei bem onde, perto da fronteira de qualquer lugar. A minha Passárgada, ou Xangri-lá se preferirem. Lá é possível mirar a luz do outro lado da lua, adorar a rua em que nos vimos e a noite em que nos conhecemos, amanhecer outra vez entre teus braços e despertar chorando de alegria, e assim passar muitas e muitas horas. Te ver buscar uma aventura uma quimera, atender preferentemente a toda gente que pede amor e o tempo livre dedicar a mim.

A passionalidade brinda semanas com mais de sete dias, novas e melhores emoções, tic-tac do relógio que recorda a dor irremediável da partida e o amor que acaba porque mesmo a carícia mais divina vira rotina. Sem importar se em dois minutos ou em um só, ser feliz. E se alguém perguntar quando, como e onde responder quem sabe, quem sabe, quem sabe.....

Quando me canso daqui, vou pra San Martin. Lá sou amigo do rei.

domingo, 3 de maio de 2009

Le déjeneur sur l’herbe

Le déjeneur sur l'herbe
Edouard Manet, 1863


Em algumas comunidades, ou mesmo em civilizações inteiras, existem celebrações que marcam a mudança de status de determinados membros. Estes atos são conhecidos, genericamente, como ritos de passagem ou de iniciação. A manifestação social destes acontecimentos inclui rituais místicos, cerimônias religiosas, modificações fisiológicas, festas pagãs ou mero compromisso firmado em documentos cartoriais. Independentemente da forma da comemoração, o sentido social destes ritos pode ser resumido no abandono de velhas atitudes e mudanças de comportamento, a partir deste ponto. Como o conteúdo simbólico implica mudança de valores, nada será como antes, nem para o membro nem para a comunidade.

Na semana passada, tive a oportunidade de participar de um destes ritos. Bem menos primitivo que alguns ainda existentes em diversos cantos do mundo, mas nem por isso menos significativo. Participei de um piquenique. Sim, a forma festiva foi de um mero piquenique. Entretanto o significado comunitário foi bem mais amplo. Tenho a certeza de que, a partir deste ritual legendário de alimentação sobre a relva, deste simples gesto de compartilhamento de víveres, esta comunidade mudou.

Para alguns o simples fato de ter pique para participar de um piquenique (trocadilho besta, meu) já seria uma demonstração clara da importância dada ao “fazer parte do grupo”. E que grupo! De uma heterogeneidade fabulosa, eles reconhecem que os novos compromissos comuns contam mais do que a bagagem individual construída até o momento. Como mensagem final fica que apesar das diferenças estamos no mesmo barco e gostamos de estar. Com descontração e alegria estreitaram-se laços. Passamos para uma nova fase.

Assim foi. Um verdadeiro rito de passagem.

PS: para os mais afoitos, esclareço que nenhum dos componentes do grupo esteve desnudo. Apesar de terem insistido para que eu experimentasse um determinado prêmio, as súplicas foram em vão. O nosso evento foi um “déjeneur avec décence”.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O anúncio.

Realmente o anúncio causou-me estranheza. Ou não seria um anúncio? Da forma com que aparecia, levava todo o jeito de anúncio. E, diga-se de passagem, um anúncio bem estranho. De início pensei que era pela redação. Afinal, um anúncio de meia linha devia ter chances mínimas de sucesso. A não ser que chamasse atenção pelo conteúdo e não pela forma.

Ah, e esse anúncio – vamos dizer assim – tinha um conteúdo deveras incomum. Pelo menos para os padrões do momento. Não chegava a ser algo extraordinário, mas a esquisitice era inquestionável. Acho mesmo que o contraste entre a falta de rodeios do enunciado e a finalidade da mensagem contribuía para o espanto causado. De certo modo o tornava quase misterioso.

A elegância da atitude e a franqueza, claramente expressas em texto tão conciso, despertavam a sensação incômoda e o desejo de que, apesar da necessidade, o anúncio não atingisse o seu intento. Torço para que poucas pessoas vejam o anúncio e se interessem por ele. E que o anunciante venha a se arrepender no futuro, não repetindo o ato.

Sem dúvida o anúncio me impressionou.

terça-feira, 17 de março de 2009

Primeiro dia de aula.

Aos que esperavam, ansiosamente, por notícias aí vai...

Primeiro dia de aula, um sucesso!

Não chorei. Não foi preciso nenhum acompanhante ficar de tocaia, espiando e esperando pela fraqueza ou ameaça de desistência. Interagi com os colegas e socializei. Dentro de limites não reparei muito a didática dos professores – talvez um pouco, mentalmente. Verbalmente, um túmulo. Nem sob tortura confesso as minhas impressões sobre os fatos.

Aceitei serenamente que alguns colegas não estejam preparados para a jornada. Talvez, em algum momento seja indispensável avisá-los disto, mas por enquanto todos estamos no mesmo barco. Em conveses diferentes. Ainda é cedo para fazer algum um juízo de mérito. Continuo muito estimulado, o que é sintomático. Valeu...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Volta às aulas!

Por favor, não pensem que este é um post atrasado. Que estava guardado desde o início de fevereiro ou março e, por razões desconhecidas, resolveu aparecer só agora. Ele é novinho em folha, ou tinindo de novo – como se dizia no meu tempo de moço. de novo - como dizia no meu tempo de moço. E não se trata de um texto genérico sobre o retorno de alguns, indefinidos e inominados, às aulas, depois de umas férias de final de ano.

O buraco é mais em baixo. Quem retorna às aulas sou eu. Calma, não permaneçam boquiabertos, esperem a taquicardia passar, afastem o espanto e contenham a perplexidade. Sim, o mestre volta às aulas. Agora na versão aluno. Depois de, praticamente uma eternidade, voltarei a compartilhar, com colegas, dos bancos escolares.

Vou fazer parte da 6ª turma de Jornalismo Científico do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade da UNICAMP) em parceria com o Departamento de Política Científica e Tecnológica, do Instituto de Geociências, e com o Departamento de Multimeios, do Instituto de Artes.

Começo na segunda-feira.

Agora, vocês devem estar perguntando – o que ele vai fazer lá?

A resposta é simples – vou aprender. Vou ouvir muito, refletir bastante e aproveitar o máximo possível das novidades que surgirem. Assim como o curso tem os seus objetivos, eu tenho os meus. E vamos coincidir, tenho certeza. É impressionantemente fascinante esta busca pelo desconhecido. O saboreio da ignorância e o vislumbre de agregar novos conceitos, valores e habilidades. Já deu para notar que eu estou muito confiante.

Receios? Poucos. Talvez o mais significativo seja a dúvida em relação ao comportamento. Depois de tanto tempo na posição inversa e com a convicção de desempenhar o papel de forma satisfatório – como se enquadrar e atuar na nova função?

Deve o rei abrir mão da majestade?

Não sei. O tempo dirá. Os próximos capítulos dirão.

Aguardem.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A aleitadora.

A Gabriela veio à luz faz exatamente 13 dias, 20 horas e 30 minutos. Pelo menos na hora em que comecei a escrever este texto. É um bebê lindo de riso farto e bochecha redonda. A boca parece pintada de um vermelho que tenho certeza o Criador (o mais superior não o Guilherme) se esmerou tanto que dificilmente conseguirá repetir a dose. E os olhinhos então... parecem dois.... bem vou ter de confessar que não consegui vê-los abertos por tempo suficiente para desenvolver uma licença poética. Ah, sim parecem dois filtros de candura e pureza.

Nesse pouquíssimo tempo já transformou, por completo e para melhor, toda uma série de vidas. Incluindo pais, avós e avôs, demais ascendentes e uma leva de parentes em linha direta e torta fora os amigos e conhecidos. Praticamente o mundo inteiro. Esse já não é mais o mesmo há 13 dias, 20 horas e 45 minutos.

Cumprida a praxe de odes à recém vinda vamos resgatar, um pouco, aquela a quem parece reservado um digníssimo segundo plano. A ocupante da função de mãe. No desempenho das suas nobres funções cria uma cumplicidade com o do terceiro plano – a personagem descrita como pai. Este consegue complementar ou substituir a mãe em quase tudo. Acorda à noite, atende aos choros, mima, acalanta, dá banho, limpa cocô, aguarda arroto... enfim, supre quase todas as necessidades fisiológicas. Menos a função maior – a amamentação. Desta forma a exclusividade materna reduz-se a ... ser uma aleitadora. A encarregada de executar o divino ato de alimentar a prole indefesa e dependente.

E nesta tarefa superior, as preocupações simplórias e mundanas com a inteligência de mercado são substituídas pela dúvida existencial de exaurir completamente a seiva de um seio ou proporcionar a bilateralidade das tetas, a cada mamada. Qual aquele príncipe da Dinamarca, a aleitadora se corrói na dúvida e a busca pelo esclarecimento consome momentos intermináveis. Primeiro o direito, depois o esquerdo. Ou só o direito e na próxima o esquerdo. Deve-se começar de forma invertida na próxima mamada? E como, frente ao cansaço e desgaste da execução da tarefa leiteira, garantir a seqüência desejada? Com o recurso singelo da caneta marcadora de textos? Um broche migratório? Ou desenvolver um algoritmo de previsibilidade que admita, pelo menos, quatro incógnitas?

E assim passam-se os dias.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Receita para um ano bom.


Apesar da formação, exerço o hábito da receita com muita parcimônia. Por opção, falta de clientela ou, mesmo porque, como não há certeza da obediência, nem em tempo, quantidade ou duração, contento-me com o exercício do conselho. Pelo menos este aceita o disfarce de desejo ou esperança.

Esperança que domina o final de cada ano. Esperanças altruístas que incluem, quase sempre, condições nas quais temos influência limitada. Para além dos votos holísticos e grandiosos de saúde, amor, felicidade e paz a minha receita inclui situação mais mundana, nem por isso menos apreciável ou prazerosa. Uma mistura de simplicidade com satisfação. Não é uma fórmula mágica. Muito menos uma solução. Se não for seguida não acarretará revides, retaliações ou represálias. Para alguns, o ano pode ser imensamente satisfatório na sua ausência. Por isso não é condição necessária. É até dispensável.

Mas quem assumir este compromisso terá a sensação de que o ano será bom por merecimento, não apenas por circunstância. Semelhante a um pacto nupcial, a promessa em seguir a receita garante que ninguém acabará 2009 com as mãos abanando. Garantia de satisfação ou o seu ano de volta.

A receita é muito singela: compartilhe bom-humor. Não guarde apenas para si. Distribua, doe, partilhe, alugue, venda, faça leasing, aplique, plante e colha bom-humor. Não no sentido de galhofar o ano inteiro. Humor compatível com a conjuntura de todos os momentos. Bom-humor na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Isso mesmo, case com o bom-humor. Todos os dias. O ano inteiro.

E quem não se achar capaz de ou interpretar que não tem bom-humor para oferecer, que busque um compartilhamento invertido – aproxime-se, envolva-se, apodere-se, usufrua do bom-humor daqueles conhecidos bem-humorados. Sem a preocupação de extinguir as reservas do alheio. Este componente é inesgotável. O bom-humor é um poço sem fundo. Sempre há mais de onde brota o tesouro. Como uma reação em cadeia, bom-humor gera bom-humor. E assim por diante.

Alguma dúvida que dará certo?
Experimente e me mande a conta.
Em bom-humor.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Homem do povo.


Algumas pessoas, mormente as que não me conhecem bem, têm a impressão que eu seja um pouco esnobe. O fato de trabalhar sempre de terno e gravata, mesmo no ambulatório do SUS, não me exaltar no trânsito, manter um tom de voz baixo em discussões, tratar todas as pessoas com igualdade – sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição (ta certo, talvez eu tenha copiado uma parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas não considero plágio) podem contribuir para esta percepção. Os doze anos de escolaridade na Suíça, também.

Com a familiaridade esta impressão desaparece. Eu sou uma pessoa do povo. Até tenho gostos comuns. Como prova sincera desta questão alguns amigos procuram me incluir em programas populares. Ilustro este post com a foto da sobre-toalha, usada pelo local que o Otávio escolheu, para o almoço de sábado. Talvez um pouco brega, mas muito singelos o patinho e a caçarola. Ou como dirão os peritos de plantão – naïve ao extremo. O local era simples, mas bem limpinho.

PS: se a pretensão de entrar para a política vingar, vou programar atividades como esta com mais assiduidade. Em pouco tempo ficarei craque em comer pastel de boteco, buchada de bode ou qualquer refeição oferecida pelos eleitores e correligionários. Espero contar com a ajuda dos amigos para reforçar esta imagem positiva.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Vida comprada.

foto by dismorfic, aqui

Compra-se uma vida.

Este o anúncio que poria, se a mídia adequada existisse. Compro uma vida, e pago à vista. Os fornecedores devem se apresentar, munidos de um currículo da vida. Um pouco diferente daquele vitae, exigido para obtenção de emprego. É dispensável, neste currículo, descrever o que já foi feito. Afinal, vida passada, já a tenho. Quero currículos de vidas para o futuro. Este me preocupa. O meu já feito e o meu em feitura não permitem o vislumbre do horizonte desejado. Por isso, compro uma vida. A mais bela vida de futuro. A mais poética, a mais libertária, a mais aproveitável, a mais deliberadamentefuturista. Sem necessidade de vínculo com o que passou. Compro uma vida nova. Mesmo que o proprietário não seja novo. Compro uma vida com vista para o por vir. Nada de vidas de porão, sem luz e com dívidas, das passadas, para saldar. Quero uma vida inteiramente com face leste. Para o nascer do sol. Que lembre, a cada dia, o compromisso de ser um novo. Um novo dia, um novo ser. Dispenso vidas completamente mobiliadas ou com telefone. Dou preferência por vida de cobertura, não pela posição de superioridade, mas pela proximidade do céu. Seja lá o significado que ele tenha estou disposto a visitá-lo, num futuro. Os fornecedores não precisam preocupar-se com a entrega e o vazio da própria vida. Aceito uma vida compartilhada. Até prefiro. Não tiro nada, de ninguém. A escolhida poderá permanecer com o fornecedor. A modernidade permite apenas o fornecimento de uma senha de acesso.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Amizades, afinidades e seleção natural.


Amigo é coisa para se guardar, do lado esquerdo do peito. Assim fala a canção que se ouve na América e em outros lugares. Uma exaltação merecida à amizade. A continuidade da letra refere que tempo e distância não interferem nesta relação. Pelo menos quando ela é verdadeira. Sem crítica a qualidade da música, questiono a mensagem. A amizade descrita como uma forma de sentimento único.

Independentemente de definição ou conceito, encontráveis em dicionários, este sentimento é interpretado e vivenciado de formas diferentes pelas pessoas. Algumas até criam critérios de qualificação e estratificação para amizade, reforçando o princípio da diversidade. Amigo é aquele com quem nos preocupamos, no sentido de estar ou ficar bem. E despendemos energia para isto. Este dispêndio energético pode envolver pensamentos positivos, preces, lágrimas, presença física, transferências bancárias, viagens intergalácticas ou apenas cuidar. Não se mensura uma amizade pelo indicador de “coisas feitas para”. Assim uns são amigos de um jeito e outros de outros. Cada macaco no seu galho. Apenas o compromisso de um se importar com o outro.

Mas será que a amizade deve, sempre, ser acompanhada de reciprocidade de afeto. Com exigências de intensidade, tempo e disponibilidade eqüitativas. Será, mesmo que a amizade deve escorregar para perto da possessão? Não seria possível haver percepções distintas entre os envolvidos, sem a obrigatoriedade de uma correspondência biunívoca, válida para a teoria de conjuntos, mas distanciada das relações humanas? Fulano é amigo de beltrano se, e apenas se beltrano é amigo de fulano. Invoco a existência de uma amizade egoística. Que se basta. Sem cobranças ou reciprocidades. Sou amigo. E o outro? Não sei? Ele que reflita.

Desta forma, também acredito que o processo de amizade sofra influência da seleção natural. Existem amigos que sempre participam da vida de outros e, portanto, permanecem pela eternidade. Outros vêm com o vento e ficam enquanto dure uma afinidade. São amizades transitórias. Nem por isso menos verdadeira ou intensa - apenas com timing diferenciado. Assim são os amores, os ódios e muitos outros sentimentos humanos - uns criam raízes outros passam.

PS: se o Ian tem razão (vide comentário no blog da Lele) e filosofar é um sinal de desejo de vodka, quero a minha na veia.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Os passos do anjo.


Os passos, ninguém lhe escutava. Por isso, aquele anjo andava. Por entre os sonhos. Silencioso. Quase divino. A missão, que lhe haviam dado, era muito importante. Pelo menos foi o que lhe dissera Gabriel naquela conversa derradeira. Daquela hora em diante, e até o fim dos tempos, ele seria um guardião de sonhos. Por isso e para isso percorreria milhões de vezes o mundo. A pé. E as asas? - perguntariam os sonhadores. Essas estavam penhoradas, na agência da Caixa Econômica, numa cidade ao sul do fim do mundo. Junto com os sonhos de quando ainda era humano. O que importava mesmo era andar. Léguas, atrás dos sonhos dos outros. A misturá-los todos ou a evitar que eles deixassem de ser sonhos, movido pelo ciúme ou pelo medo de não cumprir a missão e perder a serventia. Afinal, era apenas um anjo guardador de sonhos.